Proposta curiosa: escolher um Quixote e um Sancho entre rostos anônimos da Catalunha e encenar a peregrinação dos dois personagens pelo interior da Espanha. Honra de Cavalaria é uma exploração de ícones e imagens da obra de Cervantes: adaptação cinematográfica (em sentido estrito) não tem vez aqui.
Filme estranho: a única certeza que levo dele é a de que Albert Serra não é Quixote; é Sancho Pança. Sancho é um homem de pés no chão, apegado à terra e ao silêncio, que pouco entende as especulações de Quixote sobre a transcendência ou sua sede de heroísmo; Serra irá se ater então à vida mundana do trabalho e do prazer terrestre, encontrar seu nome e beleza. A vida é despir-se e vestir-se, caminhar e descansar, é trabalho; é também o prazer de imergir-se na água e de cochilar; é a felicidade de trocar meia dúzia de palavras com um amigo. E se o mundo é o mundo de Sancho (sem Deus ou heróis) é um mundo reduzido ao imediatamente sensível, mundo de pura pregnância material. Mundo formado por coisas: dois corpos em uma paisagem, o céu e a água, as diferentes cores do dia e da noite (Serra realiza aqui um dos mais incríveis trabalhos de registro da luz que vi em muito tempo, onde cada hora do dia é capturada em suas variações de luminosidade, com suas intensidades, cores e texturas particulares). Apoderar-se do mito e dar para ele a fisicalidade que merece: é isso que separa Serra de outros cinemas contemporâneos de pretensão mais retratista do que propriamente narrativa (penso aqui na esterilidade dos últimos trabalhos de Lisandro Alonso).
OBS.: IMDB informa: Serra prepara a sua adapatação de Drácula. Curiosíssimo para ver isso.
