Sancho.

06/01/2010

Proposta curiosa: escolher um Quixote e um Sancho entre rostos anônimos da Catalunha e encenar a peregrinação dos dois personagens pelo interior da Espanha. Honra de Cavalaria é uma exploração de ícones e imagens da obra de Cervantes: adaptação cinematográfica (em sentido estrito) não tem vez aqui.

Filme estranho: a única certeza que levo dele é a de que Albert Serra não é Quixote; é Sancho Pança. Sancho é um homem de pés no chão, apegado à terra e ao silêncio, que pouco entende as especulações de Quixote sobre a transcendência ou sua sede de heroísmo; Serra irá se ater então à vida mundana do trabalho e do prazer terrestre, encontrar seu nome e beleza. A vida é despir-se e vestir-se, caminhar e descansar, é trabalho; é também o prazer de imergir-se na água e de cochilar; é a felicidade de trocar meia dúzia de palavras com um amigo. E se o mundo é o mundo de Sancho (sem Deus ou heróis) é um mundo reduzido ao imediatamente sensível, mundo de pura pregnância material. Mundo formado por coisas: dois corpos em uma paisagem, o céu e a água, as diferentes cores do dia e da noite (Serra  realiza aqui um dos mais incríveis trabalhos de registro da luz que vi em muito tempo, onde cada hora do dia é capturada em suas variações de luminosidade, com suas intensidades, cores e texturas particulares). Apoderar-se do mito e dar para ele a fisicalidade que merece: é isso que separa Serra de outros cinemas contemporâneos de pretensão mais retratista do que propriamente narrativa (penso aqui na esterilidade dos últimos trabalhos de Lisandro Alonso).

OBS.: IMDB informa: Serra prepara a sua adapatação de Drácula. Curiosíssimo para ver isso.


Os seis minutos mais belos da história do cinema

07/10/2009

Sancho Pança entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia; a galeria — que é uma espécie de “galinheiro” — está totalmente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas inúteis tentativas de chegar a Dom Quixote, Sancho senta-se de má vontade na platéia, ao lado de uma menina (Dulcinéia?), que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou: é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue em pé, desembainha a sua espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte preto aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmente as imagens. No final, quase nada sobra do telão, vendo-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no “galinheiro” as crianças não param de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina da platéia o fixa com reprovação.

O que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas a ponto de as devermos destruir, falsificar (este é, talvez, o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando no final se revelam vazias, insatisfeitas, quando mostram o nada de que são feitas, só então (importa) descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcinéia — que salvamos — não pode nos amar.

Giorgio Agamben (Profanações, 2007)


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